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No ontem fui sozinho à Banca do Blues. Coincidentemente, inconscientemente passei ali em frente num sabadossim. Ao reconhecer o som da guitarra, da bateria e da gaita, eu puxei rápido a cigarra e desci do ônibus correndo. Aquela parte do Centro estava bem vazia, e se podia ouvir ecoando a voz de bluesman acompanhando o baixo.
No ontem aluguei um apartamento na Lapa. Todos disseram que achar um apartamento levaria tempo e que deveria pesquisar muito. Foi o único apartamento que visitei. Escolhi como escolho minhas roupas. Se foi o primeiro que olhei ou não, não importa. Importa que gostei. E é nele que moro hoje. Adoro a luz do sol matinal que bate nas enormes janelas refletindo a pintura pastel e o chão de madeira. Apesar dos prédios que posso ver da janela, fico feliz por ainda ter tanto céu pra mim.
No ontem comprei um ingresso para um show sem sequer conhecer a banda que vai tocar. Senti que era o que deveria ser feito. Não falo de comprar o ingresso, mas de confiar em duas pessoas. O show será no amanhã. E amanhã terei mais um ontem ou um ímpeto para contar.
P.S.: Hoje descobri que o mar dificilmente se apaixona por uma lagoa. E desse mistério eu nunca mais pretendo falar.
Depois de cinco dias de ansiedade, a noite de sábado chegou e parece que não foi tão bom quanto se esperava. Não rolou e descobri que não vai rolar nada por algum tempo. Pela primeira vez em anos, tive a sensação de ser novamente um homem que realmente sabe o que está fazendo. A levei num restaurante japonês que ela queria conhecer há algum tempo e provamos juntos coisas novas, situação que me deu facilidade em fazê-la rir. Como todos nós sabemos (ou deveríamos saber), fazê-las rir talvez seja um dos mais importantes passos. Conversamos sobre tudo o que convém conversar. Senti o que um amigo me ensinou a sentir: Que, apesar de ela e eu sermos bons amigos, somos um homem e uma mulher adultos e que, se a chamei para sair à noite, quebrando a rotina de almoçarmos juntos, não foi sem propósito. A noite passou rápido, como deveria passar. Eram quase duas da manhã quando percebi que talvez não teria ônibus pra casa àquela altura. Pedi a conta e percebi que a tocara apenas umas três vezes durante a noite. Pensei não ter conseguido o que queria. Nosso relacionamento é como uma sinapse. O contato físico não existe realmente pois estamos próximos e separados por uma fenda que espero conseguir atravessar com a ajuda de alguns neurotransmissores.


