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luquinhas e deca

luquinhas e deca

Sinto saudades desse carinha. O nome dele é Lucas. Rapaz simples, bonito. Gosta de tocar guitarra, de fazer apanhadores de sonhos, e gosta da Déborah. Moça tímida, bonita. Gosta de poesia, de saionas bem grandes, e gosta do Lucas.

Déborah e Lucas são namorados. Mas isso todo mundo percebe. Ninguém consegue tirar esse sorriso de bocó dos dois. Aquele sorriso que só temos nos primeiros meses de namoro. Todo mundo saca que eles são o casal perfeito. Por isso eu nem quero falar deles como casal (como se fosse possível). Quero falar como amigos. Não entre um e outro, mas os amigos que são pra mim. Deus sabe que tem uma pá de tempo que não converso com o Lucas, e que raramente falo com a Déborah. Às vezes um telefonema aqui, outro lá… Mas às vezes bate aquela saudade que dá um nó na garganta. É como se eu tivesse convivido com eles durante muito, muito tempo, e estivesse me despedindo agora.

Tava vendo os vídeos de quando nos encontramos, e de quando me despedi do Lucas numa esquina de Goiânia que nem sei qual é. Parece que eu senti tudinho de novo. Muito besta isso… Ou melhor, muito paia isso!

Eu gosto dessa foto dos dois. Nem sei no que estavam pensando (provavelmente em aparecer legal na foto). Sei que estavam curtindo um momento muito legal entre amigos, mas não sei porque, sempre que eu olho pra ela, parece que eu ouço os dois dizerem: Oi, gAlan! ;D

Eu sei que esse texto tá uma droga. É que eu não me preocupei em fingir que sou inteligente (como o de costume). Só não queria deixar pra escrever isso amanhã. Só não me pergunte o porquê.

Amor é como matemática. Todo mundo conhece, mas nem todo mundo entende.

bedeschi

Extraído da contra-capa da bíblia de José Bedeschi.

Quando ela pagou a passagem, deu pra ver que não se tratava de uma pessoa comum. Ela andou pelo corredor do ônibus distribuindo com-licenças e me-desculpes. Não acho que ela tenha resolvido sentar do meu lado. Não me atreveria a esperar tal ventura. Estou certo de que foi um mero acaso eu ter sentado anteriormente justamente no banco ao lado daquele que ela, cinco minutos depois, escolheria para sentar. Mas ela sentou bem ali ao meu lado. E ela falou comigo. Eu respondi com a maior naturalidade que a minha pouca calma me permitiu, mas, me acredite: isso não era muito. Não sei se foi antes ou depois do meu milhão de pensamentos sobre como puxar assunto com ela, mas ela cantou. E cantou mais de uma vez. Nossa, como a voz dela é linda. Até que ela resolveu me pedir uma informação, e eu resolvi que não deixaria a oportunidade passar. Nós conversamos sobre quase tudo. Desde prioridades da vida até a beleza da chuva. Ela disse que adora o som que a chuva faz. Eu disse que não uso guarda-chuva, pois acho que a chuva deve molhar as pessoas, e não só a terra. Quando saímos do ônibus, reparei que estava chovendo muito mais do que eu pensava que estava. “Tá chovendo bastante, né?” eu disse; “É, mas tá uma delícia!”, ela não poderia ter respondido de forma mais perfeita. Eu não consegui me livrar do efeito magnético que ela provoca. Eu simplesmente a acompanhei sem perceber. Aqueles olhos castanhos quase me tiraram a atenção dos lábios e da voz dela. Mas é impossível. Ela tem o dom de tornar qualquer coisa interessante. Toda a palavra dela soa como um romance. Não sei o que quero dela. Não sei se vou encontrá-la novamente. Só sei que, se acontecer, quero que esteja chovendo.

Eu queria ter dito mais a ela. Afinal, eu já passei por isso. Queria ter dito a ela que não há porque ter medo. Eu fiz isso, mas da pior forma. Disse a ela que vai ficar tudo bem. Que vai dar tudo certo. Que eu já passei por isso e cá estou. Não era isso o que ela precisava ouvir. Ela não queria ouvir isso. Ela já ouviu demais toda essa merda. Ela me disse que tem medo, e eu disse: “Medo nada. Vamos fazer um desenho?”  Quando eu sofri essa mesma cirurgia, eu tinha uns 8 anos. Um ano a mais que ela. Eu fiquei desesperado. Me debatia na cadeira de rodas enquanto me levavam ao centro cirúrgico. Gritava pela minha mãe e a via chorando sem poder fazer nada, sabendo que era o que me salvaria. Houve uma enfermeira que eu só pude destacar os cabelos amarelos em meio a todo aquele branco e aquela máscara hospitalar. Aquela enfermeira me disse: “Olha lá o seu coraçãozinho batendo…” E apontou minha freqüência cardíaca. Eu só consegui assistir ao meu coração por mais 4 segundos. Depois tudo ficou preto. Eu devia ter dito a ela pra que prestasse atenção em seu coraçãozinho. Que se ela não pudesse ver, que ela imaginasse. Tumtum… Tumtum… Tumtum… Era assim que eu devia dizer. Mas eu só consegui pensar nisso mais tarde. Queria ter guardado comigo a cartinha que ela fez enquanto estava lá no hospital. Não sei se lembro de tudo, mas lembro do pouco que eu consegui entender dos garranchos que ela fez por conta da mãozinha dolorida pela agulha do soro. Dizia mais ou menos: “Oi, beibezinho. Te amo muito. Você é o melhor irmão do mundo. Tô com muito medo de ser operada. Volta logo porque eu tô com saudade.” Eu não quero mais escrever. Porque só a dor traz isso? Acho que só quero me distrair, e isso aqui tem dado conta. Sou grato a Deus por me mostrar que ainda estou vivo.

Não que eu esteja triste agora, mas algo mudou. Nunca pensei que ter pais divorciados era um problema. Estranhava o modo como conhecidos meus tratavam disso. Afinal, meus pais não estão juntos há uns 13 anos, então já me acostumei com isso, e digo mais, acho até muito bom. Mas hoje eu ouvi uma coisa que eu nunca havia ouvido. “Quando seu pai e eu nos conhecemos…” Sempre achei o máximo aqueles pais contando aos filhos como se conheceram. Acho que é uma história que qualquer um gostaria de ouvir, pois foi daí que nós surgimos. Alguns surgem de um flerte num bar, ou de uma amiga de uma amiga que tinha uma amiga que também estava solteira. Outros surgem de um namorico de escola, ou de uma conversa no ônibus. Mas hoje eu notei que o evento que me deu origem não existe mais. Não teve um final feliz. Meus pais não estão mais juntos. Não é um romance. Não é um. Não é. Não. Não sei o que aconteceu primeiro naquele ano. A morte do Senna, o plano Real, o tetracampeonato do Brasil ou o divórcio dos meus pais. Mas sei que nenhum dos fatos supracitados ocorreu como uma desventura na minha vida. Foram apenas facticidades inevitáveis e inexoráveis.

Eu não tenho muitas lembranças do meu avô.  Não lembro de casos. Lembro de fatos. Como quando ele me fazia varrer o telhado coberto de folhas secas. Nossa, eu adorava isso. Costumava ser o trabalho do meu tio, mas ele cresceu, então corria “o risco de quebrar as telhas e ir parar no colo da vovó” e então “ele leva uma coça por ter atrapalhado a costura dela”. Eu ria muito quando ele dizia isso. Então varrer as telhas era um trabalho para o menor. Na verdade, eu não era o menor. Ainda tinha as minhas irmãs, mas eu era o “garotão do vovô”! E como se não bastasse a felicidade de subir lá no alto pra varrer as folhas, eu ainda ganhava um real inteirinho quando descia. “É pra colocar na poupança” dizia ele enquanto dava uns tapas na minha poupança. Digo que isso não é um caso, mas um fato, porque era como uma tradição. Eu sempre ouvia as mesmas palavras e sempre ria delas. Seu José não era um cara sempre bonzinho. Era o senhor que, quando a cadela dava cria, dizia com um tom muito sério: “Enterra tudo vivo!” O tom sério não evitava que nós déssemos umas boas risadas! Também foi o senhor que matou minha coelhinha Poliana, me fazendo descobrir que a Poliana era Poliano. Meu avô era o típico signore italiani que fazia macarronadas como ninguém! Ainda lembro daqueles olhos verdes se fechando com um sorriso enquanto beijava as pontas dos dedos. Não conheci ninguém mais naturalmente elegante que meu avô. Ele usava suspensórios e bermudas cáqui. Sempre vestia uma bonita camisa de botão e mangas curtas. O liso cabelo grisalho dele sempre andava muito bem arrumado. E aquela bengala. Ah, aquela bengala! Uma bengalinha de madeira que ele mesmo talhou e que nos contava que havia esmagado a cabeça de uma cobra com ela! Minha avó tem essa bengala até hoje, e sempre que eu olho pra ela, lembro do jeito que ele andava. Ele morreu em setembro de 1997. E dizem que morreu sorrindo. Não imagino de forma diferente.

E cá estou assistindo ao início de mais um dia. Esse sol longe de mim e de todo o preto, e lilás, e verde. Apenas o amarelo e o azul. Agora começa uma nova página, e estou quase chegando ao final do capítulo. Ainda tem muito livro pela frente, e não pretendo ler rapidamente. Quero aproveitar ao máximo o gostinho de cada palavra, de cada vírgula e, principalmente, de cada ponto de interrogação. Afinal, a vida é feita deles. Pontos de interrogação. Um dia eu disse que a satisfação era o sentimento mais incrível que se poderia querer, pois o amor também necessitava de satisfação. Hoje eu sei que o que todo homem deveria querer é não estar sujeito às vicissitudes do amor de uma mulher. A esse sentimento, chamo de liberdade, e não conheço nome melhor. À minha esquerda, o sucesso. À minha direita, o desastre. Sob meus pés, um fio de cabelo. E, é claro, não posso deixar de mencionar toda a platéia à minha volta. Quando nos equilibramos, é preciso focar num ponto único para não cair. Meu ponto de foco simplesmente desapareceu na minha frente, e eu quase caí à direita. Mas eu fechei os olhos e imaginei um novo ponto.

Espero que, quando este fio de cabelo arrebentar, eu consiga me jogar à esquerda. Ou ao menos consiga não morrer ao bater no chão.

Esta semana valeu mais que um ano. Nesta semana eu aprendi o que significa esperança. Aquele sentimento de olhar à frente e ter um vislumbre de felicidade. Um vislumbre daquele sonho há muito almejado, mesmo antes de você saber que almejava tal sonho. Nesta semana eu perdi tudo isso. Esta semana será lembrada, no início, como algo desagradável. Um pouco depois, será apenas mais uma lembrança como qualquer outra. Mais tarde, com sorte, vou conseguir tirar uma ótima lição dessa semana. O que aprendi a respeito da esperança? Aprendi que os acontecimentos nunca dependem de quanta esperança colocamos em alguém. A esta semana eu dediquei a minha vida, e desta semana ganhei um presente. É um presente embrulhado, que eu não consigo abrir. O embrulho é frágil, e fácil de rasgar, mas tudo o que eu consigo é olhar pra ele. Tem um cartão junto à fita vermelha. Neste cartão está escrito a letra de mão: Seu futuro.
Às vezes penso que nasci para que outras pessoas pudessem dizer: Alguém já chorou por mim.

A quem estou enganando? Está sendo uma ótima semana.

E lá estava eu. Sentado numa cadeira de ansiedade e afundando num colchão de insegurança. Nada parecia real. Ou foi disso que eu tentei me convencer. A realidade nunca foi tão evidente. Esperei poder recostar na lentidão em que o tempo passava, mas eu nunca fui um mestre na arte da cronomanipulação. Então fui deixado sozinho. Eu nunca sei o que fazer com as mãos nessas horas, então peguei a primeira coisa que vi na minha frente. Agora não lembro o que foi. Não. Eu simplesmente não sei o que peguei. Só lembro de tê-la visto correndo na minha direção. Eu levantei da cadeira, mas o colchão me tragou. O meu sonho logo ali. Parado na minha frente. E eu simplesmente não soube o que fazer. Na verdade, eu sabia muito o que fazer, apenas não sabia o que fazer primeiro. Todo o tempo em que passei sonhando com este momento, de nada adiantou na prática. Ensaiei mil frases, e até agora não lembro de uma sequer. A saudade já bate na minha porta. Já sinto o cheiro dela na minha lembrança, e o gosto dela já permeia meus sonhos. Tenho medo das minhas experiências futuras. O amor agora é mais que real. E a saudade também há de ser.

Os dias passam e o anseio não é mais abstrato. Os sonhos se tornam mais intensos, e os dias mais curtos. As perguntas começam a surgir não só de mim, mas de todos aqueles que esperavam sinceramente que eu estivesse blefando. Ou apenas sonhando alto. “O que você vai fazer é errado…” — Que estupidez… — “… mas não digo isso pra te dissuadir, pois sei que não vou conseguir.” — Foi a coisa mais inteligente que eu ouvi. E quanto mais eu sonho, mais vejo que é real. Seria tão mais fácil se… Não! Não importa o quão complexo e arriscado é. Importa o fim. O escopo. A coroa de louros. “Não deixe a sua vida acontecer sem você.” — Olha só… Um excelente conselho. E os sonhos ficam mais longos. Em toda memória há algo de sonho. Em todo sonho há algo de memória.


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