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No ontem fui sozinho à Banca do Blues. Coincidentemente, inconscientemente passei ali em frente num sabadossim. Ao reconhecer o som da guitarra, da bateria e da gaita, eu puxei rápido a cigarra e desci do ônibus correndo. Aquela parte do Centro estava bem vazia, e se podia ouvir ecoando a voz de bluesman acompanhando o baixo.
No ontem aluguei um apartamento na Lapa. Todos disseram que achar um apartamento levaria tempo e que deveria pesquisar muito. Foi o único apartamento que visitei. Escolhi como escolho minhas roupas. Se foi o primeiro que olhei ou não, não importa. Importa que gostei. E é nele que moro hoje. Adoro a luz do sol matinal que bate nas enormes janelas refletindo a pintura pastel e o chão de madeira. Apesar dos prédios que posso ver da janela, fico feliz por ainda ter tanto céu pra mim.
No ontem comprei um ingresso para um show sem sequer conhecer a banda que vai tocar. Senti que era o que deveria ser feito. Não falo de comprar o ingresso, mas de confiar em duas pessoas. O show será no amanhã. E amanhã terei mais um ontem ou um ímpeto para contar.
P.S.: Hoje descobri que o mar dificilmente se apaixona por uma lagoa. E desse mistério eu nunca mais pretendo falar.
Ninguém ficou em casa no sétimo dia. O sábado teria sido ordinário se não fosse a chuva, a tristeza e o blues. Depois de tantas semanas dizendo o que deveríamos fazer, finalmente resolvemos apenas fazer. O Bruno me ligou por volta das três da tarde com a tão repetitiva proposta que sempre fazíamos um ao outro, mas que há um bom tempo não se voltava a cumprir. Ir à Banca do Blues. Trata-se de uma banca de jornal na esquina da Avenida Rio Branco com a Avenida Presidente Wilson que, de extraordinário, só tem o logotipo personalizado com o nome da banca no topo e o fato de ter apresentações de bandas de blues locais sábadossim, sábadonão, o que torna o local muito bem freqüentado, atraindo inclusive público das boates na redondeza. Não sei se foi pela chuva forte que durou apenas alguns minutos ou se nós dois apenas erramos na contagem dos sábados e tivemos a desventura de aparecer lá num sábadonão, mas encontramos a banca fechada como qualquer outra banca no Centro do Rio às 21h. Iniciou então a nossa busca por algo pra fazer num sábado à noite no Centro da cidade, o que não seria difícil se não estivéssemos preocupados com o que encontraríamos em certos ambientes. Pensamos na Lapa que é bem perto de onde a gente estava, mas o que teria na Lapa num sábado à noite além de drogas e prostitutas? Bebida, mulheres e sinuca. Sei lá, sinuca é legal, mas não era exatamente o que a gente tava procurando. Então resolvemos passar no teatro da Caixa pra ver se tinha alguma coisa rolando, nem que fosse uma sessão de cinema-mudo. Mas, ao chegar lá, descobrimos que as coisas aconteciam bem mais cedo do que pensávamos. Ficamos pra um café. No ínterim entre o café e a dupla exposição de problemas pessoais naquela mesinha branca e redonda, decidimos que iríamos pra Botafogo num bar chamado Odorico. Eu curioso com os bons comentários de uma menina, o que se repetiria muito ao longo da noite como vai ver; e o Bruno com a vontade de conhecer o lugar que sempre passava em frente no caminho do trabalho. Chegamos, então, na Rua Voluntários da Pátria, 31, que àquela altura já era um bocado familiar por eu ter passado ali em frente algumas vezes nas últimas semanas. Depois de olhar por um momento o cardápio, resolvi pedir um Martini Bianco pra acompanhar meu amigo. O que eu não sabia era que essa bebida tinha um alto teor homossexual na apresentação da taça média com uma cereja no fundo. Tudo bem. É o preço que se paga por não se informar o suficiente. A noite foi se desenrolando entre palavras, garotas absurdamente bonitas e a fina chuva que começava a cair na mesa alta que escolhemos na calçada. Fomos, então, convidados a entrar pelo segurança que, notavelmente, estava intimidado com a minha bebida que, não diferente do tal Martini, também tinha um visual bastante andrógino. Eu gosto de Tequila Sunrise. Fazer o que? Uma vez lá dentro, mais uma vez me deixei levar pela curiosidade, e apesar de eu já ter tomado cerveja algumas vezes e de ter detestado, resolvi pedir um garoto escuro que, até ontem, eu não sabia que significava “copo pequeno de chopp preto”. E o Bruno em seu sóbrio Nestea, afinal, uma capotagem na Avenida Brasil estragaria a noite. Foi um ótimo sábado. E não foi pelos Martinis, bolinhos de bacalhau, chopps e muito menos pelo jogo Botafogo x Boavista que tava rolando no telão. A culpa é da chuva, do blues e da tristeza.
Quando ela pagou a passagem, deu pra ver que não se tratava de uma pessoa comum. Ela andou pelo corredor do ônibus distribuindo com-licenças e me-desculpes. Não acho que ela tenha resolvido sentar do meu lado. Não me atreveria a esperar tal ventura. Estou certo de que foi um mero acaso eu ter sentado anteriormente justamente no banco ao lado daquele que ela, cinco minutos depois, escolheria para sentar. Mas ela sentou bem ali ao meu lado. E ela falou comigo. Eu respondi com a maior naturalidade que a minha pouca calma me permitiu, mas, me acredite: isso não era muito. Não sei se foi antes ou depois do meu milhão de pensamentos sobre como puxar assunto com ela, mas ela cantou. E cantou mais de uma vez. Nossa, como a voz dela é linda. Até que ela resolveu me pedir uma informação, e eu resolvi que não deixaria a oportunidade passar. Nós conversamos sobre quase tudo. Desde prioridades da vida até a beleza da chuva. Ela disse que adora o som que a chuva faz. Eu disse que não uso guarda-chuva, pois acho que a chuva deve molhar as pessoas, e não só a terra. Quando saímos do ônibus, reparei que estava chovendo muito mais do que eu pensava que estava. “Tá chovendo bastante, né?” eu disse; “É, mas tá uma delícia!”, ela não poderia ter respondido de forma mais perfeita. Eu não consegui me livrar do efeito magnético que ela provoca. Eu simplesmente a acompanhei sem perceber. Aqueles olhos castanhos quase me tiraram a atenção dos lábios e da voz dela. Mas é impossível. Ela tem o dom de tornar qualquer coisa interessante. Toda a palavra dela soa como um romance. Não sei o que quero dela. Não sei se vou encontrá-la novamente. Só sei que, se acontecer, quero que esteja chovendo.


