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O amor é uma relação que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas apenas consigo mesmo. Ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade, mais e melhor do que na relação propriamente dita. Não é a relação em si o amor, mas, sim, o seu voltar-se sobre si mesma, o conhecimento que ela tem de si mesma depois de estabelecida. Quando dois termos se relacionam, a própria relação entra como um terceiro, como unidade negativa, e cada um daqueles termos se relaciona com a relação, tendo cada um existência separada no seu relacionar-se com a relação. Acontece assim com relação a ela, sendo a ligação entre ela e eu, uma simples relação. Ao contrário, se a relação se conhece a si mesma, esta última relação que se estabelece é um terceiro termo positivo, e temos então nosso amor.

Certamente não pensei que tudo aconteceria dessa forma. Quando disse a ela que só ficaria com ela quando soubesse que essa relação não atrapalharia nosso relacionamento com Deus, não sabia que hoje eu teria certeza de que juntos seríamos muito mais ousados. Não achei que nossa amizade ficaria ainda mais forte, como hoje tenho certeza de que ficaria. Principalmente, jamais cogitei que sentiria tal paixão quando disse a ela que só ficaríamos juntos quando eu tivesse certeza dos meus sentimentos, para que não me enganasse e muito menos a ela.

Fiz pra ela um café com leite naquela manhã. Isso foi há menos de uma semana.

Como não canso de dizer, a vontade de Deus se move de formas misteriosas.

Pela primeira vez me sinto à vontade para usar as categorias Amor e Felicidade.

Quando ela pagou a passagem, deu pra ver que não se tratava de uma pessoa comum. Ela andou pelo corredor do ônibus distribuindo com-licenças e me-desculpes. Não acho que ela tenha resolvido sentar do meu lado. Não me atreveria a esperar tal ventura. Estou certo de que foi um mero acaso eu ter sentado anteriormente justamente no banco ao lado daquele que ela, cinco minutos depois, escolheria para sentar. Mas ela sentou bem ali ao meu lado. E ela falou comigo. Eu respondi com a maior naturalidade que a minha pouca calma me permitiu, mas, me acredite: isso não era muito. Não sei se foi antes ou depois do meu milhão de pensamentos sobre como puxar assunto com ela, mas ela cantou. E cantou mais de uma vez. Nossa, como a voz dela é linda. Até que ela resolveu me pedir uma informação, e eu resolvi que não deixaria a oportunidade passar. Nós conversamos sobre quase tudo. Desde prioridades da vida até a beleza da chuva. Ela disse que adora o som que a chuva faz. Eu disse que não uso guarda-chuva, pois acho que a chuva deve molhar as pessoas, e não só a terra. Quando saímos do ônibus, reparei que estava chovendo muito mais do que eu pensava que estava. “Tá chovendo bastante, né?” eu disse; “É, mas tá uma delícia!”, ela não poderia ter respondido de forma mais perfeita. Eu não consegui me livrar do efeito magnético que ela provoca. Eu simplesmente a acompanhei sem perceber. Aqueles olhos castanhos quase me tiraram a atenção dos lábios e da voz dela. Mas é impossível. Ela tem o dom de tornar qualquer coisa interessante. Toda a palavra dela soa como um romance. Não sei o que quero dela. Não sei se vou encontrá-la novamente. Só sei que, se acontecer, quero que esteja chovendo.


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